Frevo do Mundo

Produzido há 10 anos, disco renovou o ritmo pernambucano unindo a tradição dos metais com novas texturas e interpretações de Edu Lobo, João Donato, Céu, China, Siba, Eddie, Orquestra Imperial, Mundo Livre S/A, Cordel do Fogo Encantado, Spok e outros artistas

 

O frevo tem muitos amantes no Carnaval. No cotidiano, nem tanto. Mas o disco Frevo do Mundo busca justamente atrair ouvintes o ano inteiro. Com novas abordagens estéticas, esta antologia tem repertório incomum, apesar de formado por temas clássicos de Nelson Ferreira, Capiba, Luiz Bandeira e outros grandes compositores do gênero. Algumas melodias são pouco familiares até para os recifenses, numa mostra de que há muito mais do que “Vassourinhas” e “Evocação no 1” para se escutar.

Lançado originalmente em 2008 pelo selo Candeeiro Records (do Estúdio Muzak), o CD foi um dos destaques fonográficos da imprensa nacional na época, com elogiosas críticas. Depois de um longo período esgotado, as faixas finalmente estão disponíveis a partir desta segunda-feira (29/01) nas principais plataformas digitais (Spotify, Deezer, i-Tunes, Google Play).  

Edu Lobo – Das 14 faixas, talvez só Frevo No 1 do Recife, escrita por Antônio Maria em 1952, aqui presente na sólida interpretação de Edu Lobo, com arranjo de metais do maestro Clóvis Pereira, seja facilmente conhecida em todo o país. As demais músicas, mesmo as que fizeram sucesso na Era do Rádio, hoje ficam restritas a Pernambuco.

O disco impressiona pelos arranjos criativos, nos quais o frevo deixa de ser escravo da tradição e sofre modificações. Isso acontece logo na abertura do disco, com É de Fazer Chorar (clássico de Luiz Bandeira lançado originalmente em 1957), com a banda Eddie e a participação de Spok nos metais para fazer um frevo-canção com pitadas de ska.

João Donato – A surpresa sonora continua na faixa seguinte, Fogão um frenético frevo-de-rua escrito por Sérgio Lisboa em 1953, que ficou bem mais suave nas mãos de João Donato, com acento caribenho e de bossa nova. “Parece de minha autoria. E o arranjo ficou em banho-maria porque não tenho a fervura do Recife e meu piano é lacônico”, afirma Donato.

Mas o Frevo do Mundo não é daqueles tributos cujo tema homenageado passa por tantas mudanças que se descaracteriza completamente. Ao contrário, no disco está presente a essência das orquestras, do passo e da folia. O projeto inova exatamente por interagir com diferentes gerações da música brasileira e valorizar a escola de metais de Pernambuco. E contempla vários mestres da orquestração pernambucana. O brilho dos improvisos de Spok é dividido com os mestres Duda, Clóvis Pereira e Ademir Araújo.

Céu e Orquestra Imperial – Os metais de Duda, por exemplo, ressalta tanto o piano de João Donato, como a batida eletrônica da cantora Céu e o grupo 3 na Massa, composto por Rica Amabis (Instituto) e Pupillo e Dengue (Nação Zumbi), no frevo-de-bloco Frevo de Saudade. O mesmo frescor e sobriedade podem ser observados na voz de Rodrigo Amarante e sua Orquestra Imperial, em O Dia Vem Raiando. Esses dois temas são de Nelson Ferreira mas os arranjos diferem bastante do modelo tradicional de cantar frevo-de-bloco, geralmente feito em coro feminino, tendo apitos como introdução.

Já Siba e a Fuloresta renovam o frevo-canção Os Melhores Dias de Minha Vida um antigo sucesso de Capiba de 1952, na voz de Carlos Galhardo. Embora produzida em estúdio, a faixa mais parece ter sido gravada nas ruas de Olinda, em pleno Carnaval, quando os foliões descem as ladeiras ouvindo de longe as orquestras. Da mesma forma, esta faixa inicia com uma tuba isolada em som crescente, que ao poucos se soma a trompete, trombone, saxofone e bumbos.

Cordel – No disco consta ainda Saudade, dos Irmãos Valença, que também é outro sucesso de 1952, igualmente lançado por Carlos Galhardo, mas a versão do Cordel do Fogo Encantado, com o Maestro Duda, ressalta a voz teatral de Lirinha, recheada pelo diálogo melódico entre violão, fagote, clarinete, flauta e muita percussão.

Além da já citada faixa da banda Eddie, as versões com mais elementos da música pop ficaram por conta de Só Presta Quente com Ortinho, e Oh! Bela com o cantor China e o Sunga Trio. “Um frevo tão popular tinha que ter uma roupagem popularesca, numa mistura de Daftpunk, Kelly Key e Capiba”, brinca China.

A única música composta recentemente ficou para o Mundo Livre S/A, que faz uma bem humorada marcha de duplo sentido com Metendo Antraz, com direito a crítica ao imperialismo americano, típica do líder Fred 04. Já Isaar de França mostra leveza em Paraquedista, de Roberto Bozan.

Frevo na flauta – O segundo tema instrumental do disco, ao lado de Fogão, é Isquenta Muié (Nelson Ferreira), com a banda recifense Flor de Cactus. “A viola faz o fraseado típico do sax e a flauta toma lugar dos metais na composição. O trabalho também tem o tom especial dado pelo maestro Clóvis Pereira, que adicionou os instrumentos de sopro com a sonoridade de bandinha de interior, remetendo às antigas fanfarras”, comenta Caca Barreto, baixista e arranjador da banda.

A flauta também norteia o arranjo de Papel Crepom (Almira Castilho e Paulo Gracindo), num clima de andamento próprio dos anos 1950. Gravada inicialmente por Jackson do Pandeiro, a nova versão é de Erasto Vasconcelos. E para concluir, a criativa Orquestra da Bomba do Hemetério encerra o disco com o contagiante frevo-de-rua Cabelo de Fogo (Maestro Nunes), intercalando a força dos metais, própria para sacolejar foliões do centro do Recife, com coral e percussão de boca.

Para Marcelo Soares, diretor do Estúdio Muzak e produtor do disco em parceria com Pupillo (Nação Zumbi), o resultado do trabalho é uma hibridização do ritmo pernambucano com novas texturas e interpretações, por meio da expressão de quem produz um novo estilo de música contemporânea no Brasil. Segundo Spok, o CD Frevo do Mundo é maravilhoso. “Eu sempre transitei bem entre a tradição e a novidade. Gosto muito das duas coisas. E este disco retrata bem isso”.

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